A matéria publicada na versão impressa e digital da Folha de São Paulo pela jornalista Beatriz Montesanti, aborda o grande crescimento das chamadas healthtechs durante a pandemia da Covid-19 e como isso foi possível. Sob a manchete “Startups voltadas para saúde têm boom durante pandemia” o CMO e Sócio-Fundador da Mobile Saúde Jean Shulz, junto com executivos de outras empresas da área, explica como aconteceu esse processo de expansão em 2020.

O texto completo você encontra abaixo.

As chamadas healthtechs se adaptaram rapidamente à telemedicina e ao aumento de demanda para lançar novos produtos e serviços.

 

Startups voltadas para a saúde que conseguiram se adaptar rapidamente ao aumento da demanda por cuidados e à mudança na legislação tiveram resultados surpreendentes nos meses da pandemia.

Isso porque o isolamento social acelerou processos por alternativas tecnológicas para os cuidados com a saúde. A busca por atendimento médico cresceu por meios virtuais, enquanto em um primeiro momento consultórios se esvaziaram e tratamentos de muitas doenças diminuíram. Soma-se a isso o fato de que no início da pandemia o governo federal autorizou, em caráter emergencial, a telemedicina —uma demanda antiga do setor e para a qual muitas empresas já estavam se preparando.

Como resultado, aplicativos e serviços virtuais de cuidados tiveram um boom nos últimos meses. As soluções vão além da oferta de teleconsultas, e passam por prontuários eletrônicos, uso de inteligência artificial para prescrições de fármacos e gestão de consultórios.

Foi o caso, por exemplo, da Mobile Saúde, dedicada a desenvolver tecnologias para telemedicina e autoatendimento. A empresa oferece soluções digitais para cem operadoras de planos de saúde e diz ter atendido 7 milhões de pessoas durante a pandemia —a previsão é que a startup dobre de tamanho em 2020.

“Quando a pandemia aconteceu, a primeira coisa que fizemos foi intensificar serviços que clientes poderiam ter acesso. Liberamos, por exemplo, o uso do chat em nossa plataforma, para não sobrecarregar a central telefônica”, diz o sócio-fundador Jean Schulz. “Já tínhamos um projeto também para telemedicina, que desengavetamos em três semanas.”

A agilidade para se adaptar à nova realidade foi uma constante entre as empresas do setor —muitas já estavam se preparando para a chegada da telemedicina desde 2018, mas colocaram de pé seus sistemas em poucas semanas.

“De um dia para o outro tudo acelerou de uma forma nunca vista antes”, diz Ian Bonde, presidente-executivo da ViBe Saúde, pioneira em saúde primária digital no Brasil.

“Sabíamos que eventualmente iria chegar a telemedicina, tínhamos a ferramenta na mão. Juntou a necessidade do mercado e a abertura pra fazer isso.”

A ViBe oferece um aplicativo gratuito com linhas de cuidado e conta hoje com mais de 500 mil usuários. O plano, diz Bonde, é chegar a 5 milhões até o final de 2021.

Antes da telemedicina entrar em vigor, a plataforma oferecia o que chamam de “teleorientação”, que não inclui diagnósticos e atestados. Havia um foco maior também em saúde mental, com atendimentos psicológicos.

No Brasil, há 577 empresas que se definem como healthtechs, segundo levantamento realizado pela Distrito Dataminer, braço de inteligência da empresa de inovação Distrito. Até outubro, as startups do setor receberam US$ 93 milhões (cerca de R$ 505), um crescimento de 235% em comparação ao mesmo período do ano passado.

Nesse tempo, foram registradas 42 rodadas de investimento na área, 10% a mais do que em 2019 e 55% superior a 2018. Houve recorde também de fusões e aquisições: 7, ante 2 dos anos anteriores.

“O que acontece é que com o advento da pandemia a curva se acelerou. Empresas mais tradicionais começaram a entrar no segmento. Para nós, confirmou que nossa teoria era o caminho certo”, diz Fernando Gabas, sócio-fundador da Proprium, startup que mira prescrições mais eficazes de remédios, dietas e exercícios, lançada este ano simultaneamente no Brasil, Estados Unidos e Portugal.

A empresa usa painéis genéticos para permitir prescrições assertivas de canabinóides e outros compostos fármacos, e pretende funcionar também como uma big data de sequenciamento genético. A ideia da startup surgiu após a esposa de Gabas ter câncer de mama e médicos sugerirem uma medicação com efeito colateral fortíssimo.

“Estamos quebrando barreiras geográficas e financeiras para dar acesso a um tratamento adequado. Entendemos que a partir de agora conseguimos disponibilizar para um universo muito grande de pessoas o que há de mais avançado para o tratamento personalizado. Pré-pandemia não sonhávamos com isso.”

Mas o crescimento não foi percebido por todos logo de cara. Uma das pioneiras do setor de healthtechs no Brasil, a empresa dr.Consulta viu sua demanda cair em 40% nos primeiros meses da pandemia, devido ao receio das pessoas de saírem de casa.

A startup consiste basicamente em uma rede de centros médicos com foco em atendimento primário e secundário —hoje, são 45 centros localizados nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Durante a pandemia, a empresa manteve os centros abertos, seguindo protocolos de segurança sanitária, mas passou também a oferecer testes para Covid-19, coleta domiciliar para exames e entregar receitas de medicamentos em domicílios.

Assim como outras healthtechs, antecipou a oferta telemedicina, com um sistema implementado em apenas nove dias. Até o final de setembro, foram realizadas mais de 80 mil consultas online pelo aplicativo da empresa.

“Continuamos a pleno vapor, a demanda foi voltando e hoje estamos 100% de novo”, diz Renato Velloso, presidente-executivo da empresa.

A percepção de Velloso é que, mesmo pós-pandemia, a demanda permaneça alta, uma vez que as pessoas estão mais preocupadas com a saúde.

“Há uma conscientização de que as pessoas têm que se manter saudáveis, procurar médicos. Existe uma tendência de mudança cultural no Brasil em relação aos cuidados, em fazer prevenção, melhorar hábitos alimentares, fazer exercício físico”, sugere.

No geral, as startups avaliam que a telemedicina veio para ficar e não se preocupam com uma possível mudança de legislação em relação à prática. Caso haja, dizem, sobreviverão as empresas que não dependem da ferramenta como modelo de negócio e oferecem outras soluções digitais para a saúde.

De qualquer forma, a expectativa é que haja um “ambiente híbrido” de consultas online e presenciais, dizem os empresários.

“Um usuário convertido para o digital não quer voltar ao analógico. as pessoas aprenderam que não precisam perder tempo precioso no trânsito para buscar um exame, mas também não tem como o virtual substituir 100%. Vai acontecer um equilíbrio entre remoto e presencial”, diz Schulz, da Mobile.

Marcos André Sonagli, diretor-médico da Amplimed, plataforma online para gestão de clínicas e consultórios, diz que a pandemia serviu como gatilho tecnológico para as healthtechs e que, passado um pico de expectativas exageradas, encontrará um “platô” de produtividade. Sua empresa tem crescido a uma taxa de três vezes ao ano.

“Vamos perceber que a tecnologia não pode resolver todos os problemas da saúde. Precisamos ainda resolver muitas questões relacionadas à legislação e atribuição de responsabilidades. Mas teremos eventualmente uma consolidação do mercado.

Para Jeff Plentz, Fundador da Techtools Ventures, gestora de investimentos em healthtehcs, 2020 servirá de funil para selecionar as empresas com as melhores soluções para o mercado.

“Quem efetivamente cuidar de criar experiências para o paciente que torne mais confortável e menos orenosa a vida dele é quem vai se destacar. Independentemente se a solução for de gestão ou científica. No final do dia, importa o bem-estar.”​

Além da publicação na Folha de S. Paulo, esta mesma entrevista concedida por Jean sobre as healthtechs também foi destaque em outros 6 veículos de notícia pelo país: Portal Meon, Portal DL News, Folha de Londrina, Folha de Pernambuco, Portal Mix Vale, Yahoo! e no ISN Portal.

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